Foto: Ana Victória

Silêncio na Pista

Valéria del Cueto

Nem um surdo de marcação cruzará a Sapucaí. Calaram o povo no solo sagrado do samba.

Não dá para precisar a quantidade de vezes que esse texto carnavalesco foi ensaiado. Como deixar de lado uma tradição de décadas, iniciada e mantida nas capas exclusivas do Caderno Ilustrado, no Diário de Cuiabá, distribuídas entre os parceiros pelo Brasil?

Ano passado nesse mesmo momento da criação, enquanto escrevia “O Carnaval do Planeta Fome” contando o que aconteceria no Sambódromo da Marquês de Sapucaí em 2020, pensava em mudar o formato das dicas das escolas de samba do Grupo Especial que compõem a matéria de capa para o “próximo carnaval”. Achava (que ingenuidade) que caberia a apenas um rasgo de criatividade o sacode na abordagem da folia.

Apesar da Covid-19 já estar oficialmente apresentada ao mundo, a preocupação era com a falta de incentivo, estrutura e visão ecumênica do bisprefeito Crivella que conseguiu, entre outras proezas, acabar com a confraternização do povo do samba nos ensaios técnicos que antecediam a disputa. Era desses encontros pré-carnavalescos que saíam as fotos para ilustrar o material sobre os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro! A falta deles criava um hiato na preparação da festa e um desafia para selecionar as imagens.

Foto: Reprodução

Ventania

O que ninguém poderia prever é que, um ano depois, esse problema deixaria de existir porque não haveria desfile no palco da maior manifestação cultural popular do planeta. Como outros grandes eventos no mundo, ele seria cancelado.

Por conta da pandemia, primeiro se tentou um adiamento.  A festa invadiria o calendário dos santos juninos nas férias de julho(?). Sem verbas nem para pagar o 13 salário dos funcionários da prefeitura do Rio, com as incertezas do fornecimento das vacinas, sem patrocínios à vista e, considerando a paralisia econômica quase geral, a ideia foi abortada. O carnaval ficou para 2022.

Nesse meio tempo cada um se virou como pôde. Uns com mais protocolos, outros sem maiores cuidados. Foram muitas as perdas no mundo do carnaval. Sem direito a gurufins, as festivas cerimônias de despedidas que todo sambista almeja.

2017, a águia campeã da Portela / Foto: Valéria del Cueto

Tempestade

Já no início da crise as escolas se movimentaram produzindo máscaras e uniformes, arrecadando alimentos, distribuindo cestas básicas. Para chegar ao público, as LIVES se transformaram em veículos de expressão musical, cultural e canal de captação das doações. Foi a fase do “não deixe o samba morrer”. O auxílio emergencial e a Lei Aldir Blanc permitiriam uma ponta (tardia) de esperança aos milhares de artesãos e trabalhadores da indústria da folia. No início…

Para aumentar a crise, a Cidade do Samba que abriga os barracões do grupo de elite do carnaval carioca foi interditada. O poder público nas esferas federal e estadual tem feito seu papel de não ajudar a sanar a maior crise carnavalesca do milênio. Tirando o prefeito Eduardo Paes que promete editais de apoio ao setor, a festa está entregue aos seus, que pouco podem fazer e focam esforços em manterem os projetos sociais junto as comunidades.

A pista do samba: espaço de conquistas, críticas e reivindicações / Foto: Valéria del Cueto

Programação

No meio dessa desordem, o jeito é improvisar. E, com isso, carnavalizar. Se consideramos o princípio básico da manifestação cultural e usando as armas que tem, o samba vai fazer sua festa pelos meios virtuais, oficialmente. Do Viradão do Carnaval Verde e Rosa, que promoverá (de um lugar secreto para que não haja aglomeração), as eliminatórias da escolha do seu samba enredo para o ainda incerto carnaval 2022, à reprise (com comentários e depoimentos) de desfiles campeões da Portela e da Imperatriz, por exemplo. Correm por fora as programações de outros projetos, caso Boi com Abóbora que selecionou, com a ajuda do público, 14 desfiles inesquecíveis e, após as apresentações na íntegra com comentários, faz o julgamento do “super campeonato”.

A Globo quase fez a alegria dos apaixonados por carnaval ao anunciar a exibição de desfiles memoráveis, segundo a curadoria da emissora. O quase é por conta da descoberta que as escolas cariocas e paulistas se apresentarão nos dois dias em programas de uma hora e meia. Tudinho. Só dá para uma passada de samba por escola, acredita?

Squel Jorgea, ícone da Sapucaí no campeonato de 2016 da Mangueira Foto: Valéria del Cueto

Ocupação

E a Sapucaí? Vazia. Se os sambistas ficarão com os olhos compridos de desejo e saudade para o templo do carnaval, o mesmo não se pode dizer da conceituada artista plástica paulista Flávia Furtado. É dela a instalação que ocupará com balões e serpentinas a praça da Apoteose na terça-feira de carnaval.

A mesma permissão não foi dada à proposta do Museu do Samba. A instituição carioca sugeriu que, como todos os anos, fosse feita a tradicional lavagem da Sapucaí. Algumas baianas para benzer a pista e um casal de mestre-sala e porta-bandeira desfilariam ao som de um único surdo firmando o axé no território sagrado do samba. A iniciativa foi rejeitada pela Secretaria Municipal de Cultura. Poderia haver aglomeração? Para evita-la bastaria não anunciar previamente sua realização.

Assim como os moradores, ilhados na cidade ocupada por turistas que ignoram as medidas de prevenção a Covid-19, os sambistas cariocas verão seu espaço de fala ser palco para a arte. A que eles próprios não podem expressar. Aquela, em que são inigualáveis.

O que os fazem persistir e lhes dá esperança? Apenas ecos de suas próprias vozes que dizem: “Quem nos vê sofrendo, não perde por esperar, ainda há de nos ver festejar!”. Ano que vem o samba riscará novamente seu chão. Evoé, Momo!

* Outras iniciativas merecem destaque, as lives de Maria Bethânia, o cine-debate do Museu do Samba, as iniciativas de blocos, como O Cordão do Bola Preta, e do Jornal Ritmo Carioca que retransmitirá os desfiles da Intendente Magalhães, onde as escolas que sonham em chegar a Sapucaí se apresentam. Mas o recorte da matéria é o Grupo Especial e o maior carnaval do mundo e ele acontece no templo do samba…

 

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM FIM…


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